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Será Que The Last Of Us Está Roubando Uma PI?

Postado por Raphael Ozawa em 07/06/2013

Ontem acabou-se o embargo que impedia a imprensa de resenhar um dos jogos mais aguardados do ano: The Last of Us para PlayStation 3.

Ao redor do mundo os maiores sites de games estão elogiando e dando altas notas. Enquanto eu assistia uma resenha em vídeo, um pensamento que já havia sumido há algum tempo — desde os trailers do ano passado — voltou: a impressionante semelhança entre a personagem protagonista Ellie e a atrizEllen (Page). Tive que fazer uma rápida pesquisa para ver se Ellen Page participou da produção do jogo. Já revelo logo: não participou. Não sei se foi cópia intencional, uma homenagem, ou pura coincidência. Esse não é o ponto. O que isto traz à minha mente é: trejeitos e aparências são Propriedade Intelectual?

Para aqueles que não conhecem o trabalho de Ellen, ela é uma atriz em rápida ascensão. Após uma impressionante estréia em Juno, ela foi atriz coadjuvante em um grande filme de Christopher Nolan e já atingiu status de protagonista em outro de Woody Allen. No mundo dos games ela será personagem principal ainda este ano de um grande game — quase um filme interativo — da Quantic Dream atuando como a personagem Jodie. Este jogo chama-se Beyond: Two Souls.

Com esse impressionante currículo, Ellen seria a escolha perfeita para ser a Ellie de The Last of Us, e em minha opinião faria um ótimo trabalho. Sou fã do seu trabalho, e nem sei se ela foi sequer convidada para o papel, mas o que realmente me incomoda é: será que ela (ou qualquer outro ator famoso) ainda é realmente necessário para esse tipo de projeto em 2013 em diante?

Para nos ajudar a refletir vamos considerar mais informações. A indústria de games deixou a indústria de filmes para trás já faz anos. Os Vingadores possui o récorde atual de bilheteria no final-de-semana de estréia de um filme, arrecadando US$ 207 milhões. O game Call of Duty: Black Ops II tem o récorde vendas no dia do lançamento, arrecadando US$ 500 milhões nas primeiras 24 horas. Apesar da indústria de games ser mais rica, em um exemplo exagerado ela poderia investir bem menos em um jogo: um ator poderia fazer a captura de movimentos de diversos personagens, um casal de dubladores todas as vozes, e um único roteirista todos os diálogos.

Eu sei que estrelas de cinema são mais do que a personificação que elas fazem de seus personagens. Sua aparência, carisma, trejeitos e até a vida pessoal são todos componentes de seu sucesso. Mas este ano vamos receber uma nova geração de consoles de video-game com imagens e sons melhores — e mais realistas. As indústrias de animação e computação gráfica avançam a passos largos. E se pudéssemos pegar emprestado a aparência, o carisma, e os trejeitos de Kiefer Sutherland, mas torná-lo ligeiramente diferente, talvez mais jovem também, para evitar processos, e fazer um jogo ou um filme de animação sobre um agente heróico do FBI luta contra atos de terrorismo em tempo real no solo americano? Feito pelos talentosos criadores do game Splinter Cell seria fantástico, não seria?

Agora fosse pode estar supondo que estou julgando, mas não estou. Em minha opinião fazer isto não certo, nem errado. O que estou constatando é que a nossa noção sobre o que é Propriedade Intelectual, o que somos donos depois de criarmos algo está rapidamente se desfazendo. A evolução tecnológica já se provou impiedosa e incontrolável. Desde o Napster, grandes indústrias estão tentando lutar contra ela, mas estão falhando miseravelmente.

Está na hora de nós criadores — escritores, ilustradores, fotógrafos, músicos, atores, chefs de cuisine, todos — pegarmos as rédeas em nossas mãos e guiarmos nosso futuro, mudando nossos pagamentos e recompensas, a forma como o mercado funciona e, acima de tudo, a forma como nós pensamos.

Porque hoje uma personagem se parece com uma atriz que não a interpretou, ontem o Chicago Sun-Times demitiu todos os seus fotógrafos profissionais e deu iPhones aos repórteres, amanhã minha lasanha de microondas terá o mesmo sabor da melhor lasanha da Itália. E a criação perecerá.

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